
Uma alternativa para o fim da violência e estímulo ao lazer
por Luciana Zacarias
Inglês, cidadania, artesanato, capoeira, recreação e culinária. O que podem ter em comum? Essas e outras atividades de cunho sócio-cultural, artístico, esportivo, de lazer ou profissionalizantes, fazem parte das oficinas gratuitas que são oferecidas às comunidades pelo Programa Escola Aberta.
“No começo foi muito bom, estava com depressão e tenho encontrado conforto no curso com as meninas e a professora”, confessa Paula Oliveira de Matos, 18 anos, que participa da oficina de tear na Escola Municipal Juiz Oscar Mesquita, do bairro São Cristóvão. Assim como muitos, ela soube do programa por indicação de uma amiga e interessou-se.
O Programa Escola Aberta, criado em 2004 pelo Ministério da Educação em parceria com a UNESCO, pretende expandir o contato entre escolas e comunidade com o objetivo de estimular a cidadania e diminuir os casos de violência urbana. Segundo o site da Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC), em Salvador, são 40 escolas que optaram por abrir seus portões às atividades complementares nos fins de semana. Sábados, das 8h às 17h, e domingos, das 8h às 12h, funcionam as salas que oferecem oficinas que duram, em média, três meses cada. As aulas variam de 2h à 8h por dia, e são disponíveis a todos que se interessarem, bastando comparecer à escola para se inscrever.
Pais, ex-alunos e os atuais, pessoas da comunidade e bairros vizinhos, têm buscado participar das oficinas que já demonstram eficiência e relevância social. Há quem diga que “é o melhor programa que o município já teve”, como a coordenadora do Escola Aberta, Ana Lícia Silva, na Escola Municipal João Fernandes da Cunha, do Parque São Cristóvão.
Para se abrir um novo curso, os coordenadores do programa avaliam a necessidade da comunidade e a sua freqüência às aulas. Além disso, o professor, que deve ser do local, necessita de disponibilidade, capacidade, dedicação e saber lidar com os alunos. É também o responsável por determinar a idade mínima e o número de alunos por turma. No final das aulas, o oficineiro faz uma avaliação e repassa à coordenação a lista daqueles que estão aptos a receber um certificado, que fica a cargo da escola oferecer ou não. “O propósito é recrear, não profissionalizar, e muitas vezes só a prática já serve para trabalhar”, explica Balbina de Jesus, coordenadora do colégio Juiz Oscar Mesquita.
O cheiro dos salgados produzidos na aula de culinária espalha-se por todo o pátio interno do colégio. Segue para o corredor, e entra nas salas abertas, às vezes com duas atividades no mesmo espaço. Os alunos interagem silenciosamente e trabalham de modo concentrado. Dielson Cerqueira Costa, 36 anos, morador da comunidade e técnico em informática, é um dos primeiros alunos do programa na Escola Municipal João Fernandes da Cunha. Ele sempre passava em frente à escola da filha e via cartazes. Um dia, curioso, buscou se informar e, após começar com o inglês, hoje está na sua quarta oficina, artesanato. “Os professores e seu incentivo são bons, mas deveriam ter mais cursos”, afirma em relação ao aproveitamento das oficinas.
Fora o interesse pessoal, há sempre aqueles que procuram o programa para complementar a renda. “Tem muitos alunos já trabalhando graças ao que aprenderam na Escola Aberta”, afirma Carlos Alberto da Silva. O padeiro e merendeiro do colégio João Fernandes começou como voluntário e hoje é também oficineiro. Segundo ele, essa tem sido uma experiência excelente, pois além de aprender com os cursos e congressos oferecidos pela Secretaria, faculdades e ONG´s, é uma forma de participar das questões cidade e do Brasil. Quanto aos alunos, cita aqueles que se destacam e acabam formando suas próprias oficinas, e os que as aulas de redação ajudaram no vestibular.
A Escola Municipal Juiz Oscar Mesquita demonstra o valor que as pessoas têm dado ao Programa Escola Aberta. A coordenadora Balbina revela que os pais mandam seus filhos nos fins de semana ao colégio para afastá-los das ruas, que consideram perigosas. Há também aqueles que fazem parte das oficinas e levam consigo as crianças por causa do espaço de lazer. A popularidade é expressa através de reações como a insistência para ficar após o horário. Ela lembra de uma época em que, por falta de verba devido à demora do dinheiro fornecido pelo Governo Federal, a diretora pensou em dar fim ao programa. “Muita gente fez carta pedindo para não acabar com o programa e ela até chorou”, conta Balbina. Para dar continuidade, eles têm de usar o material da escola e ficam sem pagar os oficineiros, que recebem R$ 5 por hora/aula.
A aluna Paula Oliveira, que antes estava parada e foi estimulada pelos pais a freqüentar as oficinas, diz que isso lhe ajudou a ver o mundo. Ela ressalta que as pessoas deveriam enxergar as oportunidades que o curso oferece, e lamenta a atitude do governo em não dar prioridade ao programa. Resta à coordenação fazer exposições dos trabalhos dos alunos para vender e renovar o estoque material das aulas.
(maio de 2007)
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