Espaço verde

por Lízia Sena

Ao entrar na Praça Calazans Neto, localizada em Itapuã, basta seguir até o fim da rua a procura do verde aglomerado que indicará que está no caminho certo. O caminho estreito de areia cercado por plantas em ambos os lados indica uma porta amarela com um aviso na parede para os marinheiros, ou melhor, aos reggaeiros : regaee roots.

A porta fica geralmente encostada e presa pelo cadeado solto. Sendo que o toque da buzina indica algum desconhecido interessado em conhecer o lugar: “Nós não somos donos do Espaço Verde. A comunidade que é. Apenas zelamos por um espaço melhor”, afirma os fundadores do espaço Rafife Maria Árabe e Divaldo dos Santos Gomes, também conhecido como Dioris.

O local se encontra no meio de dois contrastes: a escassez e a abundância. De um lado apartamentos e casas luxuosas. Do outro um cortiço repleto de moradores antigos do bairro de Itapuã. A primeira impressão que se têm ao adentrar o Espaço é que pisaste em outro mundo, liberto da civilização urbana. Pois a única coisa que os cerca são plantas que respiram a céu aberto. Para entrar no paraíso e desfrutar do “jardim do éden” ao som de regaee basta levantar o cadeado.

Dentro do Espaço ficam a casa dos fundadores, um pequeno bar, banheiro, palco improvisado para bandas e teatro, com uma cortina de kami colorida e um camarim em construção. Dois jogos de sinuca, um de totó, um tabuleiro de xadrez e jogos eletrônicos. Ao entrar na casa, fotos de cantores de regaee e um conselho de Che Guevara: “Hay que endureser-ce, pero sem perder la ternura jamaz”. À noite as estrelinhas no teto e o mago feito de biscuit brilham, iluminando a casa e surpreendendo os freqüentadores: “Somos meros trabalhadores. Não temos faculdades nem nada. Embora nossa casa seja freqüentada por este nível, aprendemos muito com eles”, dizem o casal Rafife e Dioris.

O começo de tudo
O Espaço Verde surgiu em 2002 como um local para reunir os amigos mais próximos, tocar um violão, conversar, ter um espaço para se divertir e ajudar uns aos outros: “O propósito era trazê-los mais para perto, os amigos foram aumentando. Não esperávamos que chegasse nesta dimensão que é hoje”, dizem os fundadores do espaço, Rafife Maria Árabe e Divaldo dos Santos Gomes. A casa já existia, fundada pela geração de Divaldo, mas o Espaço Verde se formou com a união e decisão do casal: “Escolhemos ficar aqui atrás onde ninguém queria. Tiramos o lixão, formamos o Espaço Verde e unimos nossas almas através do regaee. A educação de nossos filhos, Surian Árabe e Rasud Árabe, é o regaee. O rastafari não é trança, mas corpo, alma e coração”, afirma Rafife.

No inicio os freqüentadores colocavam vela em cima das árvores e montavam uma fogueira na areia para conversar e ouvir um som: “Não sabíamos que tínhamos tantos amigos músicos. Antes as pessoas precisavam se deslocar do bairro para ouvir um regaee, se divertir. Hoje temos um espaço nosso e não precisa gastar dinheiro com transporte”, diz Rafife.

Atualmente um lugar onde todos se conhecem: “Tem gente aqui que eu conheço até a quinta geração. Um ambiente familiar feito dos jovens para os jovens, fundado pelo casal, a nossa heroína Rafife que cuida do bar, da casa, do ambiente e do som”, diz o incentivador do projeto sócio-cultural Pablo. Os freqüentadores são em sua maioria jovens que buscam manter relações de amizade, conhecer novas pessoas, se divertir e aprender. À noite às vezes surgem rodas de conversa no mato em torno de uma fogueira conversando assuntos dos mais diversos. Desde assuntos cotidianos a marxismo, Hitler, Ongs, música, religião e doenças. Enquanto isso, uns jogam sinuca, outros xadrez, namoram e escutam regaee. “Pela manhã temos o compromisso social, à noite o entretenimento”, afirma Rafife Árabe referindo-se ao projeto sócio-cultural e preservação ao meio ambiente. O principal foco é a preservação do meio ambiente, mas além de oferecer cursos gratuitos e lazer, o espaço cede espaço para palestras e reuniões: “Estamos envolvidos na cultura de Itapuã e queremos que creça. Temos mais amigos que fazem parte deste resgate, como relembrar a lenda do acarajé e recitar poemas de Castro Alves. As baianas vieram na lavagem de Itapuã. Este lugar parecia um lindo tapete branco.”, afirma Rafife e complementa num tom decepcionado com os órgãos públicos: “Meu único desejo é que nos registrem como espaço cultural e não como bar. Gostaria muito que os órgãos nos enxergassem e dificultassem menos. O bar e meu comércio de carne do sol são necessários. Não posso viver só da arte. Somos humildes. Os meninos para conseguir figurino para o teatro fazem pedágio”.

Projeto sócio cultural
Música, xadrez, capoeira angola, reciclagem e biscuit. O projeto que surgiu há oito meses atrás oferece quase tudo que o leitor possa imaginar de forma gratuita, dando oportunidades às pessoas da comunidade. Os professores voluntários têm como principal objetivo levar consciência acima de todas as coisas. Qualquer pessoa pode participar, sendo que as únicas exigências são a presença freqüente e o compromisso social.

“Meu objetivo não é apenas ensinar música. Procuro sempre acoplar o músico com a arte e os valores éticos. Fico triste quando vejo a galera pulando sem entender nada. Gosto que analisem. Isso que leva satisfação aos artistas. Talvez não para os artistas boçais, tocadores de flautas que gostam de se vangloriar, mas para os verdadeiros artistas”, diz o professor de música, integrante da banda Ciclo e da Associação de Famílias pela Paz no Mundo João Durvalho, 26.

As aulas de teoria musical acompanhadas por baixo, guitarra e violão são realizadas toda quarta das 16h às 18h. Os poucos alunos estão satisfeitos com o ensino e a oportunidade: “É difícil estudar música porque é caro. É ótimo estar fazendo de graça ainda mais com um professor como João que é excelente”, diz o aluno Pedro Gouveia, 23 anos. Seu irmão, Wilson Muniz, que estava tocando violão na espera pelo professor concorda e afirma que estão no aprendizado básico.

O curso de capoeira angola surgiu a três meses no local com a iniciativa do mestre Gabriel Pontes. O mesmo que transformou o chão de areia em piso para realização das atividades. O grupo de Capoeira Resistente existe há 11 anos em Brotas. Logo quando surgiu, o mestre conheceu algumas pessoas voltadas a cultura, começou a ensinar em Brotas e decidiu implantar as aulas no Espaço Verde para difundir e preservar todos os seus costumes, movimentos e jogos, cada vez mais raros com a dimensão da capoeira regional. “Antes eu era contra. Hoje sou a favor, pois aqui só existe regional”, diz mestre Gabriel.

Com o mesmo foco de passar consciência, para que a capoeira deixe de ser um mero esporte, mestre Gabriel afirma: “Existem muitos jogadores e poucos capoeiristas. Jogar perna é capoeirista pra quem não conhece. Não precisa ter força e sim sabedoria”. As aulas acontecem nas terças, quintas e sábados às 17h. A roda começa com alongamento, todos com tênis e de calça folgada. Além de força nas mãos, movimentos lentos, habilidosos, postura e olhar penetrante. É também preciso aprender um pouco de teatro, movimentar-se para distrair o adversário que a qualquer momento pode atacar. Qualquer pergunta é só se dirigir ao mestre. Ele irá ajudar. Em 87 só podia ensinar capoeira quem tivesse formação em Educação Física: “Eu tenho 30 anos com capoeira angola. Curso acadêmico é bom pra todos, mas não é interessante para eu viver bem. Tenho quase 40 anos e não dependi de um curso pra viver.Trabalhamos a nível de comunidade, não acadêmico. Se eu for cobrar uma aula particular é R$80, mas não faço isso. Prefiro levar consciência”, desabafa o mestre. Por enquanto a quantidade de alunos é pequena “Éramos seis, agora só somos dois. Mas vamos fazer divulgação. Primeiro de maio talvez tenhamos a primeira amostra. A capoeira é um símbolo de resistência da cultura baiana, é importante ter consciência de transformação. As aulas são ótimas, mas precisamos comprar uma lona, porque quando chove alaga tudo”, diz o aluno Eduardo Balverde. A nova integrante nascida em São Paulo, hoje moradora da Bahia também se sente satisfeita, mas contesta a pouca dimensão da capoeira na Bahia, principalmente angolana: “Devia ser obrigatório a capoeira nas escolas, estamos na Bahia. A partir da capoeira você aprende a respeitar os outros, trabalha com comportamento, com olhar”, diz Vivian Samanta.

As aulas de xadrez são coordenadas pelo professor Hélio, que começa a aula com a frase: “Imagine que você está em um castelo” e a partir daí explica as funções dos residentes do castelo e estratégias de jogo. O tabuleiro foi doado pela jogadora Eliege, hoje uma relíquia: “É antigo, lindo, mas é o único que temos para jogar. Tomar aulas com Helvis é uma maravilha”, diz a residente do Espaço, Rafife.

O local já formou dois grupos de teatro que ganharam o mundo. Por enquanto o grupo de teatro está em recesso, mas vão voltar a ter as oficinas: “ A galera estava atrás de emprego, fica difícil marcar horário pra treinar, mas vamos voltar”, diz um dos atores Eduardo Balverde. As peças são comentadas por muitos, principalmente as de comédia. As roupas são feitas de papel muitas vezes, pela falta de apoio: “A distribuição do dinheiro direcionado a cultura é mal elaborado. 48% é destinado a RJ-SP. Melhorou um pouco. Mas eles financiam os grupos que já tão organizados e eles já têm apoio até demais. Os emergentes acabam ficando sem nenhum”, diz Balverde.

E por fim, mas tão importante quanto, existem as aulas de reciclagem e biscuit coordenadas pelo professor Jorge. As plantas feitas de garrafa pet rodeiam a árvore no meio do Espaço formando um belo contraste entre o natural e o artificial aproveitado. As notícias passadas do jornal esperam serem utilizadas numa mesa de madeira. Na casa, quadros feitos pelos alunos à mostra e um mago feito de biscuit. Quase tudo sendo aproveitado e conhecimentos compartilhados a todo instante.

Regaee Roots

“Domingo isso aqui parece um templo”, diz o incentivador dos projetos socioculturais, Pablo referindo-se aos shows de regaee espiritual. A pouca iluminação, o contato com a areia e com o verde ao som ambiente de regaee roots tornam o Espaço mais do que agradável para os freqüentadores. Nem sempre todos conseguem ficar dentro do Espaço. Uns preferem passar pela porta de emergência do local e entrar mais em contato com a natureza, no espaço demasiado verde. Outros ficam na praçinha perto da casa, namorando, conversando e ouvindo o som que os une. O pequeno palco improvisado foi montado pelo dono da casa, Dioris, que utilizou uns pedaços de madeira e palha. O camarim em construção fica logo atrás, onde os artistas se preparam. A casa não tem acomodação suficiente para todos os integrantes da banda que acabam dormindo no próprio palco felizes com a satisfação de seu público.
Dentre as bandas que já tocaram no local estão Moa Ambesa, Tribo do Sol, Meditation e Semente da Paz. As expectativas surgem logo cedo e só terminam com o amanhecer do cansaço na volta para casa. Alguns ficam sentados, outros em pé dançando, mas todos se divertem com muita paz: “Pode ter 300 pessoas aqui, que ficamos na maior paz”, diz Rafife. Os shows ocorrem quase todos os domingos das 18h às 22h. O ingresso é R$5. Às vezes mulher não paga antes das 19h e em alguns casos acontecem shows beneficentes. Neste caso cada pessoa pode trazer 1kg de alimento não perecível, brinquedos ou agasalhos que serão doados a uma instituição. O último show beneficente conseguiu arrecadar 110kg que foram doados a uma instituição no Bairro da Paz. O aviso do convite nos convida a reflexão: “Pior do que não ter, é ter e não repartir”.

O Espaço Verde já teve alguns problemas com reclamações da SUCOM (Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município), que pela lei permite apenas 70dB(setenta decibéis), no período compreendido entre 7h e 22h. Bastante revoltada com órgãos que, admite, mais atrapalham do que ajudam, Rafife diz: “Por eles fechávamos tudo com tijolos, forme uma caixa, para que ninguém escute nosso som. Já o ECAD quer cobrar direitos autorais do som que coloco durante a semana. Mostrei todos os Cds a eles, não conheciam nenhum. Uma coisa é cobrar dos sons que tocam direto nas grandes rádios, vendem mil exemplares de Cds. Outra coisa são cantores emergentes.Eles deviam dar uma revisada nos papéis. Existem casos e exceções”.

Preservação ambiental
Além do entretenimento, jogos, shows, aulas gratuitas e conscientização, o Espaço Verde se preza pela sua preocupação principal: A preservação do meio ambiente. A retirada do lixão, o trabalho e esforço no cuidado e implantação das sementes no local geraram o crescimento do que hoje podemos desfrutar: Uma área ambiental coberta de plantas, mudas de todos os tipos: “Pinha, jenipapo, graviola, romã, tem de tudo”, diz Rafife. O marido, Divaldo, mostra-me o pé de Dendê: “Aqui o que serve para fazer o azeite da baiana. Prometemos até dar uns pés para a Baixa do Dendê, eles não têm mais árvores”. Alguns voluntários ajudam na preservação do espaço, como Mike: “Eu limpo as folhas secas aqui”, todos colaborando para um bem em comum. Antigamente os vizinhos atrapalhavam deixando os cavalos pisarem nas plantas, animais soltos, mas como diz Rafife: “O dono do cavalo já ta mais amigo. Os vizinhos já estão colaborando, começando a entender, mas ainda é preciso levar conscientização”. Entristecida com a derrubada das árvores onde hoje existe um condomínio, Rafife relembra: “As grandes construtoras ganham grandes licitações da prefeitura. Fomos prejudicados com a licitação dos condomínios aí na frente. Eu só ouvia o motor serra e chorava durante dias, vendo as árvores caírem”. Em vez de ajudar no reflorestamento e preservação da grande área ecológica de Itapuã que o Espaço Verde propõe, a prefeitura, de acordo com os donos do local, atrapalha, se preocupando com problemas menores: “O pessoal da prefeitura em vez de pegar o lixo, fica se preocupando e reclamando disso aí”, aponta Rafife para as folhas secas. “Isso é adubo, que tirem o lixo. Não quero ajuda financeira ou política. Só quero que nos deixem trabalhar e dificultem menos. O apoio que queremos é da Secretaria do Meio Ambiente para transformar aqui em uma reserva ecológica, fazer um reflorestamento. Nós tínhamos oito lagoas no bairro. Hoje só tem uma, a do Abaeté. Temos um poço aqui, pretendemos urbanizá-lo”, completa Rafife mostrando a água limpa. Segundo a Super Intendência do Meio Ambiente, localizado nos Barris, ainda não há nenhum projeto ou planejamento para a preservação da área.

Cana Caiana
A partir do projeto que junta amigos na roda para chupar cana e trocar idéias, já surgiram várias propostas de novos projetos. Dentre eles um curso pré-vestibular gratuito e convidar as escolas para conhecerem o espaço neste semestre: “Já temos professor de inglês, matemática, dentre outros. Mas precisamos que mais pessoas abracem esta idéia. Meu trabalho aqui foi identificar os talentos e dizer ‘agora se mova, dê continuidade’. A primeira fase foi a estruturação, já temos espaço. Agora vamos seguir em frente. Precisamos de apoio, vontade temos e muita”, diz o incentivador sociocultural Pablo. A comunidade agradece: “O espaço é maravilhoso, aberto, gratuito, todo mundo se conhece. Venho quase todos os dias jogar uma sinuca, jogo eletrônico” , diz Bruno Silva,17. “Eu gosto muito da arte, do visual, das conversas. Cada vez que venho encontro algo diferente”, complementa Vivian Samanta.

(maio de 2007)

Deixe uma resposta