
por Mila Melo
Cedo, elas começam a trabalhar. Arrumam a trouxa de roupa na cabeça e se dirigem à Lagoa do Abaeté, assim como suas mães faziam. São mulheres na grande maioria negras que se iniciaram na profissão ainda criança. Algumas lavadeiras de Itapuã lavam roupa para manter a tradição familiar e outras fazem disto também uma profissão. São mulheres nascidas e criadas no Abaeté que passaram a infância nos arredores da Lagoa e que respeitam o local porque o consideram um lugar sagrado e religioso.
Hoje elas não utilizam mais a água da Lagoa, lavando suas roupas em local e horário determinado. Em 1993, foi construído o Parque Metropolitano do Abaeté e, junto com ele, foi entregue à comunidade de Itapuã um espaço, denominado de Casa das Lavadeiras, com tanques para que as mulheres pudessem continuar a lavar roupa. A iniciativa visava a proteção ambiental, já que as roupas eram lavadas na Lagoa com produtos químicos.
Mulheres pobres e semi-analfabetas, as antigas lavadeiras não tinham consciência que o uso de produtos químicos prejudicava a Lagoa. Como não havia água encanada em Itapuã, não só roupas eram lavadas na Lagoa. As mulheres também lavavam tapetes e pratos, como afirmou Elisângela Barreto, 21 anos. Elisângela começou a lavar roupa com seis anos de idade e disse que gostava mais quando podia utilizar a água da Lagoa porque agora elas só podem lavar roupas na Casa das Lavadeiras.
As lavadeiras deixaram de usar a Lagoa como tanque, mas mesmo assim, os problemas ambientais não desapareceram. Maria Clara da Silva, 39 anos, descendente de lavadeiras com 34 anos de profissão, confirma que todas as roupas eram lavadas na Lagoa, mas acredita que “graças a Deus e aos orixás, naquela época nunca se viu o Abaeté secando como agora, depois que deixamos de usar a água da Lagoa”.
Uma das contribuições do espaço da Casa das Lavadeiras é que as mulheres não precisam mais se expor ao sol e a chuva. “Prefiro lavar roupa aqui porque aqui não tem sol”, afirmou Rita de Cássia, 32 anos, que lava roupa desde os 13 anos e é filha de lavadeira. Luiza dos Santos, 38 anos, 14 anos lavando roupa, também prefere o espaço pelo mesmo motivo.
As lavadeiras além de lavar as roupas de casa, lavam “para fora” e cobram em média R$20 pela “trouxa” de roupas. Solange Alves Miranda, 34 anos, é lavadeira há aproximadamente 10 anos e lava roupas de casa e de pessoas que contratam seus serviços. Mas também existem mulheres como Zildélia Conceição, 46 anos, que lava roupa há 36 anos e que não trabalha mais para fora, apenas lava as roupas dela e dos filhos.
Nova geração
Uma das lutas das lavadeiras, de acordo com Maria Clara, é a construção de um espaço para as crianças, para os filhos de lavadeiras. “O espaço recreativo que existe pertence ao Parque Metropolitano de Abaeté”. Para a lavadeira, o Parque não foi construído para a comunidade de Itapuã, que é carente, mas para ser um local de burgueses. Luzia dos Santos disse que os filhos dela não freqüentam muito o local, apenas ajudam a levar as “trouxas” de roupa.
As lavadeiras podem utilizar a Casa de segunda a sexta e são proibidas de trabalhar aos sábados, domingos e feriados por determinação do Parque. Para Maria Clara, “desde a construção do Parque Metropolitano que o Abaeté deixou de ser Abaeté”.
(junho de 2003)

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