O boteco do “Fas de Conta”

por Rachel Koerich

Não cheguei a entrar, fiquei parada extasiada olhando para o letreiro descascado, rindo sozinha. Não sabia o que mais me entretinha: se era aquele “s” mal colocado, ou a criatividade. Da onde teria saído um nome tão curioso? Não resisti. Tinha que perguntar. Recoloquei meu celular na bolsa, guardei meus óculos escuros na caixa, respirei fundo e entrei. Tinha certeza! Havia encontrado a minha história.
Aquele nome era mesmo mágico. Quando entrei, milhares de coisas passaram pela minha cabeça. Não sei se imaginei que quando entrasse lá encontraria um lugar colorido com um atendente coelho chamado “John” que, vestindo um uniforme impecavelmente branco e uma boina com os dizeres: “Fas de Conta”  me serviria, animado, sorvetes e chocolates de graça. Não sei se esperava um aquário com sereias penteando seus cabelos sob o olhar atento de princesas, príncipes, piratas e animais falantes que constituiriam a clientela.

Não sei o que exatamente passou pela minha cabeça, mas por um momento aquela lanchonete, aquela humilde lanchonete de São Cristovão representou  pra mim um pequeno lugarzinho onde tudo era possível, em que todas as verdades não seriam mais verdades e onde todas as leis e regras da física, da ciência e da matemática poderiam ser contrariadas. Um lugar onde até o faz poderia ser escrito com “s” apenas para provocar aqueles que não arriscam fugir das normas e regras pré-estabelecidas. Afinal era isso que o faz de contas significava para mim. O mundo mágico daquelas historinhas que eu lia quando era criança.  Mas logo fui puxada pra realidade. E confesso. Foi melhor do que qualquer coisa que eu poderia ter imaginado.

Atrás do balcão estava Célia. Ela enxugava, com um pano encardido, um único copo. Quando entrei, sua expressão não mudou em nada. Ela desconsiderou por completo meu sorriso deslumbrado por estar lá dentro. Não me disse boa tarde, nem sequer me perguntou se eu queria alguma coisa. Deve ter deduzido que minha estadia ali seria temporária, como se eu estivesse fugindo de uma chuva e tivesse entrado lá apenas em busca de um lugar coberto. Baixou os olhos e continuou concentrada no copo.

Com exceção de um bêbado discreto sentado numa mesa no canto, não havia mais ninguém. Aos poucos minhas fantasias foram se dispersando e me dei conta que estava em um bar comum, como todos os outros. Havia uma televisão pequena, pendurada no alto que estava desligada, nenhuma música tocava no rádio. A única coisa que se ouvia era o sonido do pano em atrito com o copo.

Olhei para o bêbado, sorridente também, buscando alguma formalidade. Ele me mandou um beijo asqueroso, e depois passou a língua pelos lábios numa tentativa frustrada de se mostrar um homem irresistível.  Nesse momento teria desistido, não fosse Célia me defendendo: “Fica quieto, Cleidson!”. E ele ficou.

Resolvi me aproximar do balcão.  Célia me tranqüilizou “Não liga não, o Cleidson é gente boa, só faz besteira quando tá bêbado”, começou a rir “o mal é que ele tá sempre bêbado”.  Eu, embora não estivesse achando muita graça, ri também para acompanhá-la, precisava ganhar sua confiança, senão jamais saberia a origem do nome do boteco.  

Ela me perguntou se eu queria alguma coisa. Eu não queria, mas disse que sim. Perguntei o que ela me sugeria.  Ela me disse que tinha sobrado sarapatel do almoço.  Esse eu tive que recusar com um “Não, obrigada.”, porque cordialidades têm limites. Resolvi pedir uma coca-cola e aceitei sob muita insistência uma coxinha.  Estava até gostosa.

Ela me contou que o bar estava sem movimento naquele dia, mas que normalmente fica mais cheio. Disse também que o bar era do marido dela, mas depois que ele tinha falecido (baixou a cabeça melancólica, respirou fundo e continuou) “Eu mesma que faço o almoço, cuido da limpeza, faço meus pagamentos, faço tudo!”. Eu olhei pro pano encardido na sua mão (ela ainda enxugava o copo). Desconfiei um pouco da parte da limpeza, mas fiquei quieta. Até então eu só era um ouvinte atenta.

Confessei que era uma estudante, e que queria escrever uma matéria sobre o bar, mais especificamente sobre o nome dele. Ela me olhou desconfiada. O sobrenome dela, não me disse, idade então “Nem pensar, minha filha!” mas pelo menos matei minha curiosidade “O nome quem pintou aí na frente foi o Faz de Conta, meu marido, precisava ver ele com o baldinho de tinta todo animado, o nome, essas coisas, foi tudo idéia dele. “ e até me explicou o porque do apelido “Ah, o faz de conta quando bebia só sabia mentir, inventava tanta história que acabaram colocando esse apelido nele. Quando eu conheci ele, já era assim. E ai de mim se chamasse ele de Ubiraci, era Faz de Conta e pronto”.

(novembro de 2007)

4 Respostas

  1. Bizarro o texto, nem um pouco jornalístico em relãção aos demais – também não muito bons. Parece que estou lendo um conto, uma crônica…. JAMAIS uma resportagem.

  2. Dado

    Olá. Como vc sabe, a reportagem não é único formato de texto que vale a pena ser lido. Por isso, não vemos como problema a utilização de outros formatos aqui. Além disso, você está enganado em relação à estrutura do texto jornalístico. Profissionais de vanguarda, do passado e do presente, têm buscado utilizar recursos literários em seus textos o que, acreditam eles e nós também, só enriquecem o texto. É possível encontrar até em jornais de grande circulação textos escritos em primeira pessoa, em formato de cordel, em quadrinhos, entre outras experiências. De qualquer forma, as suas críticas são bem vindas, porque sempre temos, sim, muito a melhorar.

    Abç

  3. Adorei o texto!!!
    Uma delicia de se ler…me imaginei no lugar da autora.
    Parabéns!!!
    Gostei muito do site de vocês tb!!!

  4. querido dado…

    vc logo se vê que vc é um leigo no formato de uma reportagm…
    a grande maioria dos premios pulitzer foram feitos no mesmo formato do texto de Rachel.
    vou dar exemplos pravc ficar ligado:

    Charles Dickens em “um homem é guilhotinado em Roma”
    Willian Howard Russellem “A batalha de Balaclava”
    Winston S. Churchill em “Fuga”

    e muitosoutros.

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