Contadora de histórias

Publicado em 16/02/2008 por

2


francisquinha1.jpg

por Agnes Mariano

Nascida e criada numa pequena colina de Itapuã de onde se vê o mar, quando Francisca Passos, a Dona Francisquinha, começa a lembrar de tudo o que viveu, nos convida a uma deliciosa viagem no tempo, por um lugarejo distante onde só se via mar, areia, lendas e poesia. Conhece cada cenário e cada história com a intimidade de quem, além de ter participado de tudo, também se tornou uma pesquisadora diletante. Quando fala em escolas, “até em faculdade já me levaram”, ou mostra os tesouros que reuniu nesses anos – livros, fotos, reportagens e objetos -, ela nos convence de que tantas histórias bonitas não merecem mesmo ser esquecidas.

“Aqui todo mundo vivia da pesca. A praia, além da areia, era um tapete verde: salsa, cheia de flor. Tanto que foi por acaso que um pescador da rede de xaréu achou a pedra de São Tomé. Deu esse nome porque era véspera do dia dele, 20 de dezembro de 1602. E aí construíram a cruz e a capela de palha. A cruz está lá até hoje, só mudou o nome, pra Piatã. Tinha a festa todo ano, a gente ficava a noite toda: fazia a fogueira, as senhoras rezando, as meninas dançando, as crianças brincando e os homens no samba. Foi a primeira festa de Itapuã. Ainda vou lá todo ano, a gente reza e acende a fogueira. Enquanto eu estiver viva, a tradição não acaba”, diz ela.

Ganhadeiras
“Minha mãe era ganhadeira. Você sabe o que é isso?”. Para explicar, dona Francisquinha recita uma poesia antiga “que ninguém sabe quem fez”: “Nascida na Praia de Itapuã, comprando peixe barato, pescado pela manhã/Somos velhas ganhadeiras que veio negociar/Trazendo pouco dinheiro para o peixe encontrar/Nós compramos e assamos e tornamos a vender/O dinheiro que ganhamos não chega para comer/Adeus que já me retiro/Adeus que já vou embora/Adeus até outra hora”. A venda era feita no Mercado de Santa Bárbara, na Baixa dos Sapateiros, para onde as ganhadeiras iam andando, conta ela.

Enquanto a mãe ia vender o peixe, ela ficava em casa tomando conta dos irmãos e do bisavô. “Aqui na rua só tinha três casas de telha, o resto era de palha. Minha mãe sempre dizia pra eu fechar a porta, mas sabe o que era a porta? Um pano que amarrava em dois pregos”, conta ela, rindo.

No chão das casas, o costume era colocar areia alva da praia e folhas de pitanga: “Chão de tijolo só tinha na escola. Foi em 1926 que eu fui pro colégio público. Fazia com capricho, queria ser professora. Lia tudo, até papel velho. Naquele tempo não tinha nada aqui, nem jornal, nem livro. Os pais da gente diziam que tinha que tratar bem a professora porque ninguém queria vir pra cá. Então cada semana uma mãe lavava a roupa da professora, um pai dava o peixe, se fazia a farinha, separava a parte da professora. Os alunos varriam a escola, carregavam água, ganhava ”bolo” e ainda queriam bem a ela, não era como hoje não”.

Sobre o seu sonho de ser ser professora, as colegas sempre caçoavam: “Só se for do cabo da vassora”, sem imaginar que um dia dona Francisquinha seria convidada de honra em muitas escolas de Salvador, para contar as suas histórias. Naquele tempo, ela nem conhecia Salvador: “Só ouvia falar, minhas colegas diziam pra eu ir na cidade, ver o bonde, que era bonito como quê”. Os primeiros veranistas chegavam “de carroça, pela praia, porque não tinha estrada”. Quando o primeiro posto de saúde de Itapuã foi inaugurado, Dona Francisquinha empregou-se lá, como auxiliar de enfermagem: “E lá mesmo me aposentei”.

Recados de amor
Os namoros e casamentos aconteciam ali mesmo. “O namoro era nas salas de dança e nos recados. A criatura que me ensinou a fazer renda vivia dando recado pra eu levar pro namorado e aí eu ganhava cocada, amoda, bolachinha de goma”. Dona Francisquinha também teve o seu amor, “uma companhia muito boa, que durou 30 anos e nove meses. Ontem, fui até lá visitar ele”, diz ela, referindo-se ao pequeno cemitério de Itapuã.

Antes de se despedir, acenando na porta da sua graciosa casa cor-de-rosa, ela recita outro verso das antigas festas de Itapuã: “Ele hoje não foi à pesca, por causa do temporal/Trago anzol e trago linha pra o peixe pegar/Pra vender à freguesa nesse dia festival/Sou pobre pescador que vive nas ondas do mar/Somente pegar o peixe pra freguesa comprar/Eu vou ver minha jangada, meu barquinho sem par/Que vem velejando lá pelas ondas do mar/Duros ventos já encontro, lá pelas ondas do mar/Sou pobre pescador, o perigo é de enfrentar”.

* Dona Francisquinha, figura lendária do bairro de Itapuã e fundadora do grupo Mantendo a Tradição, faleceu poucos dias após esse entrevista, em 2001. A sua irmã, Dona Helena, é hoje uma Mestra Popular da Cultura.

Publicado em: PERFIL